quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Dentro de mim


 Lá no fundo dói o peito
na parte de cima escorrem lágrimas
só alivia quando deito
o peso de todas as lastimas.

Vejo coisas flutuando
coisas que não consigo segurar
mesmo sem esperança vou tentando
só quando pegá-las vou parar.

Sinto o mundo me escorrendo
como carbono ele me mancha
e essas manchas duram seu tempo
e quando vejo já se desmancha.

Aprendendo a viver intenso
tentando de tudo não me privar,
mas sempre mantendo o censo
para minha paz não se destilar.

Tenho fé em algo bom
que com palavras sei explicar,
ele me induz a escuridão
que hoje sei como lá ficar.

 Lá no fundo dói o peito
na parte de cima nasce um sorriso
que só se apaga quando deito
mostrando tudo o que preciso.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Habitat


Acordado, dentro desse lugar parece que se passaram uns 10 anos e estou diferente, um pouco amadurecido e sentindo que tenho muito para amadurecer. O tempo não parece ter mudado algumas coisas, meus gostos são os mesmos, as pessoas também, mas a fé... Poderia ressignificar minha vida? Acho que já faço isso há tanto tempo que se tornou natural. A casa é velha, mas o habitat é novo, conciso e confesso que gostoso de estar aqui. Há mais de 10 anos que não me sinto tão livre. 

Acordado vejo que os pássaros na janela são diferentes, que os sonhos na prateleira passaram da validade e que as teias de aranha do teto estão caindo. Por tanto tempo deixei esse lugar com algumas caixas que eu conseguia movimentar, às vezes as moviam para os cômodos errados, mas pelo menos tentava organizar. Hoje vejo que o que faltava nesse lugar era iluminação, estava movendo essas caixas no escuro e por muitas vezes colocando-as nos lugares errados. Tem poucos meses que decidi arrumar toda a casa, os meus utensílios para isso agora são outros, eles parecem mais eficientes. São tantos cômodos que fico indeciso onde irei gastar mais recursos e tempo. Pelo que vejo a aparência da fachada está boa, a organização é por dentro, preciso me livrar de alguns móveis velhos que me impedem de caminhar, jogar fora uns quadros velhos que estão na parede, eles me causam uma triste sensação ao vê-los. O escritório, lugar onde passo maior parte do tempo parece estar bem organizado, os papéis estão no lugar certo e não tenho entulho na lixeira para descartar, mas me lembro como foi difícil deixar as coisas no lugar, não conseguia enxergar onde estava nada, tinha tanta bagunça que não sei como ainda cabiam ali e eu estava acostumado com essa bagunça. Quando já não era possível entrar no escritório foi que percebi que precisava arrumá-lo, em um momento cogitei até demoli-lo, mas com muitas lágrimas e suor cada pequeno objeto foi colocado em seu lugar, as lâmpadas foram trocadas e o computador formatado. O cheiro desse habitat é bom, estar aqui nunca foi tão agradável, não sei como suportei tanto tempo sem arrumá-lo. Ainda faltam alguns locais para limpar e alguns investimentos em acabamento, mas o lixo já coloquei todo para fora, essa casa está leve e pronta para colocar uma rede na varanda e descansar ao som dos pássaros e The Beatles.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Senhor do tempo



    Não sei em que ano estamos, já não marcamos mais datas no calendário. Meu filho nasceu acho que já faz 20 anos e todos nós estamos cansados. Minha idade reflete o quão já sofri nas guerras, tenho uns 56 anos e trabalho quase o dia todo para alimentar meus criados. Minha esposa é mais nova, tem metade da minha idade e é uma das mais velhas mulheres do meus estado. Ontem estava pensando no que fazíamos as noites ao sair, mas hoje sair é perigoso. As armas e o governo nos controlam ainda mais que antes, existe uma quantidade de água que se pode gastar por dia por causa da baixa quantidade de água potável. Com a quantidade que o governo oferece para minha família mal podemos tomar banho e cozinhar os alimentos, estou tão desidratado que nem suar consigo mais. Quando tinha uns 30 anos podíamos tomar banho nas beiras dos rios o dia inteiro, hoje não podemos passar 5 minutos na praia por causa do risco da grande radiação da água.
    Nosso mar está 78% comprometido, depois da ultima guerra nuclear nossa água foi por ralo abaixo e metade da população foi dizimada, mas reconheço a nossa parcela de culpa, pois não cuidamos da natureza e de nossas cidades, muito pelo contrário, semeamos a discórdia e o desejo de posse.
    Queria entender o juízo e por que sempre desdenhamos o fim em nosso ego, minha esposa diz "que nossa ignorância é tanta que as vezes nos deixamos com fome para termos mais", acho que devo concordar com ela, pois já tem mais de 2 dias que não como nada, somente trabalho e trabalho. 
    Existe uma organização que diz que iremos superar esse trauma e teremos recursos hídricos novamente em breve, mas o nosso solo não é mais fértil, nossa atmosfera está totalmente poluída e já não conseguimos respirar direito. Lembro de ver em um outdoor que a humanidade está estimada em menos de 1 bilhão de pessoas e que esse numero tem diminuído bastante, se não me engano ano passado tínhamos mais de 1,5 bilhão de pessoas morando na terra, mais de 500 milhões morreram ou foram mortas em testes de reabilitação espacial do governo. 
    Espero que alguém no futuro possa ler essa carta e entender que nós não estamos extintos por misericórdia, pois já deveríamos ter sidos dizimados e que se existe uma coisa que o homem precisa cultivar para sobreviver ao tempo, essa coisa se chama amor. Se você ficou curioso em saber meu nome e como terminou tudo, saiba que meu nome é igual o seu e que o meu fim é viver até a ultima gota de suor e sangue para espalhar o que restou da minha paz, receba bem essa carta e não queira jamais ter que escrever algo igual a este. Tenha uma boa vida.