sábado, 20 de dezembro de 2014

Nosso enlace


Morena,

    Falta algum tempo e não temo, não tenho frios na barriga e a ansiedade foi embora com sua bagagem. Penso em tudo que falta e presto atenção em cada opinião. 
    Promover meu coração era algo que não tinha em mente e entretanto esses dois brigavam para chegar a uma conclusão. 
    Havia uma menina que escrevia umas palavras no ar, ainda escreve, meu desejo é ter todas essas palavras junto comigo. 
    O tempo que ainda falta me traz um pouco de confusão, apesar de não temê-lo. Preparamos, eu e a menina, um lugar, acho que era confortável para nós dois, mas nossa pauta ainda não suporta três.
    Algumas coisas já estavam preenchidas, como nosso porta-retrato, porém faltava alguns de nossos recortes, mas estamos preenchendo. Esperar é inevitável, nossos votos tem um tom incolor e ao mesmo tempo colori tudo que está ao nosso redor. Acho interessante a forma como começamos esse enlace, foi a muito tempo, apesar da minha pouca memória, lembro-me de tudo e isso me aquece a voltar todo dia ao início. 
    Éramos meninos a brincar, fomos crescendo e renovando os nossos votos, nunca tive duvidas do que estava entrelaçado. 
    Estive fixando a memória em lembranças nossas e não sei descrever o que acontece entre nós, estou perdido em minhas palavras, acho que a ansiedade está voltando ainda com mais bagagem. 
    Morena, é como a chamo, você sempre esteve compartilhando o sangue comigo, existe uma pulsação entre nós que é minha e sua. Somos quase um, existem detalhes que nos tornarão uma unidade, ainda mais do que já somos. 
    A esse ponto imagino que a leitura dessa "carta" esteja confusa, mas imagino que os apaixonados são confusos loucos a devanear o futuro e enlaçar o passado em seus poemas sem sentido e parece que sou bom nisso. 
    Sou ainda mais apaixonado quando acordo do que quando durmo, saciar meu desejo é simplesmente estar contigo. 
    Olhando bem para mim, pareço estar vendo a ansiedade acomodada em meu peito que bate rapidamente a pensar no que se aproxima, é verdade estou ansioso a sua espera. Vê-la, morena de branco em um desfile imperial com seda e cetim, tons de ouro e valsa, depois nossa dança e caricias pelos sonhos e planos que farão de nós, um, é meu único desejo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Olhos, acalento da sua proximidade.


Estávamos de lado, um para cada lado.
Era sábado e todos sabiam de cor,
eramos pois amados,
acalentados de sabor.

Os olhos conversavam e sorriam
e você não olhava para o lado,
sangrava amor as pressas,
e manchava-me como um carbono.

Distante, era assim que suspirava
antes de vir e sair.
Parecia uma queda infinita
e ainda assim não olhava para o lado.

Fitava os olhos nos meus
e fitava com laços intermináveis meu coração.
Sorria e não acenava, preenchendo.
Criou-se então o amor.

Dentro de mim, crescia o desejo,
para fora de mim um beijo.
O sangue que escorria se aproximava
e tocava-me, preenchendo.

De um encontro distante,
criou-se uma conexão.
Enchendo meu solitário vazio,
tirando da minha face a saudade.

Antes, saudade de amar e sorrir.
Você me trouxe, o quê?
Uma nova versão de mim,
que é conectável em ti.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Quase dois meses



   Já foi fornecido, quase cheio do vazio. O seu nome se assemelha com todo o conhecimento que não se pode ter, algo que parece difícil, mas se pronuncia com facilidade. Sabe-se que sua fuga foi perto dos 90, mas quem sairia tão velho? Perguntava-se ela. O pouco que sobrava não dava para contar, sua infelicidade preenchia todo o espaço, ou como se dizia: todas as lacunas que se desenvolviam com sua falta.
     Nem se despediu, mas deixou uma carta, suja de algo que não cheirava bem, mas isso não importava. Ele escreveu belas palavras, mas que ainda não faziam tanto sentido, então preferiu queimá-la. Ela insistia em usar as marcações que ele deixou na lista telefônica. Ligou para todos os números, mas não encontrou nada que indicasse o seu sumiço. 
    Já cansada das utopias e sonhos da terceira idade, ela decidiu abrir mão, fugir, deixar os novos trapos, e os odres de vinho que acalentavam o sofrimento, não sabia do porvir, mas não usava seu dom para saber. Nas ruas barulhentas da cidade, encontrou seu amado. Viu-o sentado em uma praça ao som surdo do violão e algumas folhas amassadas. 
    Com fúria pelo abandono, ela se aproximou, mas com acalento de alma perguntou qual o motivo, o porque? Ele respondeu com um pouco de cinismo: "Você viu minha carta? Nela eu queria expressar tudo o que você não entenderia e parece que consegui. Você continua confusa, não é? Eu te dei todas as pistas, expressei-me com todo amor, fiz você me sentir, mas em saudade e aqui estamos"
    Ela não imaginava, mas ele virou-se e pegou uma folha, parecia que tinha algo escrito, logo após ele começa a cantar e parece já não haver mais o som dos carros somente o da canção em seus ouvidos, era uma canção de amor, como ele havia prometido na carta. A canção ressoava em um refrão: 
"Saudade não cabe aqui, estou solto a voar, impertinente, menina, galega, eu quero voltar"
      Então esqueceu-se do violão, da canção, pegou-a pelo braço e foi viver intensamente com ela. Depois de ter vivido 70 anos com seu amor, percebeu que quase dois meses distantes era como uma eternidade, decidiu não mais arriscar esse amor e voltaram para casa, para continuar construindo essa história de amor.