domingo, 24 de julho de 2011

Inspiração


    Sem inspiração, os passos eram contados, os sete mares eram um. Lembro-me de devanear, ter utopias, mas não havia inspiração. 
    Me acomodava entre a força do inevitável e o medo de nunca mais cantar, as melodias eram ácidas. 
    Ao me contrastar com a minha realidade desceu-me as lágrimas que queimaram as palavras que me vestiam, arrancou-me as sandálias, me fizeram sentir o chão que não mais me pertencia. 
    Outrora estava lúcido, agora não mais, andava nu de nenhuma contrarrazão, com medo das pedras, com o só da solidão.
    Nuvens eram brancas, pretas, azuis, coelhos, cavalos e dragões, hoje são apenas nuvens, chuva e mar.
    Olhava para os lados a inspiração fugia, eu tentava em um grupo de pernas alcança-la, ela me pertencia, mas fugia junto com minha lucidez. 
    Já procurei em vários verbos encontra-la, em cada esquina, em cada olhar e em cada multidão. 
    Já cansado de devanear a volta de minha inspiração, me dei conta de que ela estava comigo, pertencente ao meu medo de perde-la, no subconjunto de ideias, de fantasias, de sentimentos, encontrei-a e com todo o poema que há em unhas e dedos a escrevi, como uma morte desfalecida de uma força inconsciente.  

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Paixão

 

    Passou por aqui deixando sentimentos, esqueceu de um coração, triste como o superficial. 
    Levando o que via, escondeu-se entre os traços do escuro, fez moradia próximo a luz e sua veste era escuridão. 
    Dominou o nosso medo, roubou nosso sorriso, confundiu nossa mente e nos deixou ao esquecimento.
    Dolorido sentimento, que de incolor se fez vermelho, que de ouro se fez pó e invadiu o que estava cheio. 
    Construtor de ilusão, impune devaneador, que sonha junto aos erros, loucuras do amor. 
    Doce escuridão, ilusória lucidez, que sempre passa por nós e no final nos deixa à sós.

Da interpretação doentia

sábado, 9 de julho de 2011

Seu orgulho



    Se desfaz desse orgulho, encosta em meu peito. 
    Se desfaz desse orgulho, diz que me ama. 
    Recolhe os cacos do amor e larga esse orgulho, me puxa, me poetize, me comova. 
    Os espaços estão vazios, as noites não são tão românticas, você se ausentou de si. 
    Volte a ser o que era amor, te espero com um peito frio. 
    Menina seus olhos escureceram, seu andar está frio, mas você é a mesma. 
    Amor larga desse orgulho, quero sentir seus suspiros me arrepiando, sua fala me tirando da sobriedade e seu coração pulsando com meu. 
    Amor volte de onde partiu, traz na bagagem o amor, larga desse orgulho e vem ter um coração que espera no frio de um peito vazio.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Coração de metal


Fios de uma máquina,
laços de cetim,
forças carregadas,
coração de metal.

Vento ao rosto,
dos olhos de vidro,
da maquina sentimental,
com coração de papel.

Destino programado,
serviçal do acaso,
entre a ponte do amor,
de outra máquina ao seu lado.

Do medo instalado,
da mídia riscada,
em coração enlatado,
nascendo nova alma.

Alma artificial,
com comandos em controle,
com alicate em mãos,
cortando fios das dores.

Pedaço de lata em liberdade,
construindo um coração,
que ainda sendo de metal,
reprograma os sentimentos.