quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Senhor do tempo



    Não sei em que ano estamos, já não marcamos mais datas no calendário. Meu filho nasceu acho que já faz 20 anos e todos nós estamos cansados. Minha idade reflete o quão já sofri nas guerras, tenho uns 56 anos e trabalho quase o dia todo para alimentar meus criados. Minha esposa é mais nova, tem metade da minha idade e é uma das mais velhas mulheres do meus estado. Ontem estava pensando no que fazíamos as noites ao sair, mas hoje sair é perigoso. As armas e o governo nos controlam ainda mais que antes, existe uma quantidade de água que se pode gastar por dia por causa da baixa quantidade de água potável. Com a quantidade que o governo oferece para minha família mal podemos tomar banho e cozinhar os alimentos, estou tão desidratado que nem suar consigo mais. Quando tinha uns 30 anos podíamos tomar banho nas beiras dos rios o dia inteiro, hoje não podemos passar 5 minutos na praia por causa do risco da grande radiação da água.
    Nosso mar está 78% comprometido, depois da ultima guerra nuclear nossa água foi por ralo abaixo e metade da população foi dizimada, mas reconheço a nossa parcela de culpa, pois não cuidamos da natureza e de nossas cidades, muito pelo contrário, semeamos a discórdia e o desejo de posse.
    Queria entender o juízo e por que sempre desdenhamos o fim em nosso ego, minha esposa diz "que nossa ignorância é tanta que as vezes nos deixamos com fome para termos mais", acho que devo concordar com ela, pois já tem mais de 2 dias que não como nada, somente trabalho e trabalho. 
    Existe uma organização que diz que iremos superar esse trauma e teremos recursos hídricos novamente em breve, mas o nosso solo não é mais fértil, nossa atmosfera está totalmente poluída e já não conseguimos respirar direito. Lembro de ver em um outdoor que a humanidade está estimada em menos de 1 bilhão de pessoas e que esse numero tem diminuído bastante, se não me engano ano passado tínhamos mais de 1,5 bilhão de pessoas morando na terra, mais de 500 milhões morreram ou foram mortas em testes de reabilitação espacial do governo. 
    Espero que alguém no futuro possa ler essa carta e entender que nós não estamos extintos por misericórdia, pois já deveríamos ter sidos dizimados e que se existe uma coisa que o homem precisa cultivar para sobreviver ao tempo, essa coisa se chama amor. Se você ficou curioso em saber meu nome e como terminou tudo, saiba que meu nome é igual o seu e que o meu fim é viver até a ultima gota de suor e sangue para espalhar o que restou da minha paz, receba bem essa carta e não queira jamais ter que escrever algo igual a este. Tenha uma boa vida.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Salão


    Ela sorria, mas nada parecia estar bem. Estranha sensação era estar ao seu lado, podia ver o pulso pelas suas mãos tremulas. 
    Ele não era nenhum entre aqueles que representavam extrema importância em um salão, não conseguia sorrir, era medo em extremo consumo, voz em repleto silêncio e guerra em meio a guerra. 
    Ela sempre tomava decisões sem olhar os argumentos e sabia que aquele sapato sempre apertava o pé, mas insistia em calçar. 
    Ele ainda achava que aquele era o mais bonito que ela tinha em sua estante. 
    Olhavam ao redor no imenso salão e lembravam-se do trabalho que foi arrumar as crianças, não as deles, eles não tinham ainda. A família dela estava toda hospedada em sua casa, ele estava quase sem cabelos de preocupação, já quase pedindo que todos fossem embora. 
    De repente olhavam as luminárias no salão e lembravam daquele tímido encontro em que ele sem ter nenhum tostão a chamou para tomar uma tubaína, lembravam que ela pagou. 
    Ela sorria sem receios, parecia não pensar nos argumentos para sorrir e ele corria atrás das crianças no salão, já estava meio calvo de preocupação. 
    O sonho dela era ir à praia nas férias, mas isso seria impossível com suas economias e por isso tentava fazer com que fosse o sonho dele. 
    Ele sonhava em ter novos jogos e economizava para isso, ela sabia que ele havia até emagrecido em sua economia. 
    Ao som da orquestra, ela estava menos trêmula e mais segura e ele estava mais careca do que nunca. Os dois observavam as mesas e lembravam que ele não tinha coragem de namorá-la, era tímido e não conseguia ficar longe dela, mas ela chamou-o e pediu um beijo, doce e estranho, as mãos corriam e ela batia em sua mão e arrastava, assim lembravam o começo.
    Ele caminhava em meio ao salão, cumprimentava as pessoas e ela sentada observava onde isso ia dar, logo se lembrou do medo que ele tinha de viajar e não vê-la mais e gastava sempre suas economias para levá-la junto, era férias em semana de trabalho. 
    Ele sentou ao seu lado e acariciando sua mão pediu que ela arrumasse tudo e perguntou qual a distancia até a costa mais próxima, ela sorria e agora com mais intensidade por causa dos argumentos. 
    Os dois colecionavam lembranças e sempre que estavam em um salão, casa, avenida ou em qualquer lugar, novas memórias vinham à tona para uni-los e sempre terem mais para recordar.