sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Salão


    Ela sorria, mas nada parecia estar bem. Estranha sensação era estar ao seu lado, podia ver o pulso pelas suas mãos tremulas. 
    Ele não era nenhum entre aqueles que representavam extrema importância em um salão, não conseguia sorrir, era medo em extremo consumo, voz em repleto silêncio e guerra em meio a guerra. 
    Ela sempre tomava decisões sem olhar os argumentos e sabia que aquele sapato sempre apertava o pé, mas insistia em calçar. 
    Ele ainda achava que aquele era o mais bonito que ela tinha em sua estante. 
    Olhavam ao redor no imenso salão e lembravam-se do trabalho que foi arrumar as crianças, não as deles, eles não tinham ainda. A família dela estava toda hospedada em sua casa, ele estava quase sem cabelos de preocupação, já quase pedindo que todos fossem embora. 
    De repente olhavam as luminárias no salão e lembravam daquele tímido encontro em que ele sem ter nenhum tostão a chamou para tomar uma tubaína, lembravam que ela pagou. 
    Ela sorria sem receios, parecia não pensar nos argumentos para sorrir e ele corria atrás das crianças no salão, já estava meio calvo de preocupação. 
    O sonho dela era ir à praia nas férias, mas isso seria impossível com suas economias e por isso tentava fazer com que fosse o sonho dele. 
    Ele sonhava em ter novos jogos e economizava para isso, ela sabia que ele havia até emagrecido em sua economia. 
    Ao som da orquestra, ela estava menos trêmula e mais segura e ele estava mais careca do que nunca. Os dois observavam as mesas e lembravam que ele não tinha coragem de namorá-la, era tímido e não conseguia ficar longe dela, mas ela chamou-o e pediu um beijo, doce e estranho, as mãos corriam e ela batia em sua mão e arrastava, assim lembravam o começo.
    Ele caminhava em meio ao salão, cumprimentava as pessoas e ela sentada observava onde isso ia dar, logo se lembrou do medo que ele tinha de viajar e não vê-la mais e gastava sempre suas economias para levá-la junto, era férias em semana de trabalho. 
    Ele sentou ao seu lado e acariciando sua mão pediu que ela arrumasse tudo e perguntou qual a distancia até a costa mais próxima, ela sorria e agora com mais intensidade por causa dos argumentos. 
    Os dois colecionavam lembranças e sempre que estavam em um salão, casa, avenida ou em qualquer lugar, novas memórias vinham à tona para uni-los e sempre terem mais para recordar.